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terça-feira, 1 de maio de 2018

DA ALEGRIA DOS 30 ANOS DO BAIRRO SÃO JOSÉ DE MANAUS

SÃO JOSÉ FALA AO POLI DA ALEGRIA DOS 30 ANOS DO BAIRRO SÃO JOSÉ DE MANAUS

(Por Evanilson Andrade)

Este Poli, por suas andanças etílicas pelas ruas dos bairros de Manaus, encontrou o companheiro São José, tomando umas nas quebradas da zona leste, justamente quando se comemora 30 anos do Bairro São José, na cidade de Manaus. Dia também de festa para ele, São José. Conversamos, então, como velhos amigos que somos de conversas úmidas, sobre variados assuntos. Com a sua devida permissão, reproduzimos aqui, da conversa que tecemos, aquilo que lembramos.
POLI (muito alegre por encontrar figura tão fora do comum) — Festejando a festa do Bairro aqui em Manaus que lhe homenageou com o seu nome?
São José (rindo e tomando um trago suavemente) — É uma alegria encontrar vocês por aqui. Respondendo a sua pergunta, não estou festejando homenagem alguma. Não acredito nas relações capitalísticas hierárquicas que podem estabelecer uma ordem entre dominados e dominadores, como a homenagem consagra. Se este querido povo deste bairro me escolheu para seu nome, eles escolheram como nome próprio. Como nome de um operário, pai, lutador e alegre que sou. Eles são tudo isso.
Poli (tentando se deslocar da gafe) — Então bebe para comemorar a alegria de um povo que escolheu o nome para seu bairro o de um santo guerreiro?
São José (rindo alegremente) — Todo santo, para além das convenções dogmáticas teológicas da igreja católica, é um transgressor. Só é santo aquele que escolheu para sua existência a práxis da produção ontológica social de sua época. Assim, companheiros, como disse a alegria chamada Nietzsche: “todos os homens superiores, que eram irresistivelmente levados a romper o julgo de uma moralidade e instaurar novas leis não tiveram alternativa. Caso não fosse realmente loucos, senão tornar-se ou fazer-se de loucos — e isto vale para os inovadores em todos os campos, não apenas no da instituição sacerdotal e política”.
POLI (cientificamente) — É aí que podem dizer que tu foste guiado pelos sonhos?
São José (farsante) — não entendi!
POLI (em tentativa estúpida de explicação) — Dizem que o senhor não seguiu os desígnios divinos, mas seus sonhos. Seria Freudiano?
São José — Não, Freud não tem vez aqui. Já falei com ele e ele sabe bem disso. A questão é de sonhos como multiplicidades. Tive quatro sonhos. E em todos os quatros os bairros estão neles.
POLI (ignorantemente) — Como assim, bairros?
São José (pedindo afetivamente um copo com azeitonas e palitos, para tira gosto) — Valeu! Sim, bairros! Santa Catarina, São Paulo, Recife, Paraíba, Belo Horizonte e várias outras cidades têm bairros com o meu homólogo. Isto aqui no Brasil.
Poli — E a parada dos sonhos com relação ao bairro aqui de Manaus?
São José (retomando o pensamento e sorrindo enquanto palita os dentes) — Vou contar para vocês. O primeiro foi quando o anjo do Cara disse para eu não ter receio em receber Maria por ela está grávida do Espírito Santo. Preste atenção! Só conheci Maria quando ela deu à luz a Jesus. Sem Mistério algum, o que aconteceu foi bom e simples. Não tive a preocupação de ser tachado como corno, marido traído. A questão é comunitária. Receber e ser recebido na alegria de um novo nascimento no mundo. Quando o são José nasce aqui em Manaus são várias famílias que vem para cá para produzir, criar e desenvolver uma nova vida. Seus desejos vão movimentar suas produções. São pobres. Uns recebem os outros solidariamente. Eles são a alegria do mundo. Depois no São José…
Poli (curioso e tomando um trago) — Podemos falar disso depois. Fale do segundo sonho.
São José (passando a mão em um gato que se esfrega em sua perna) Sim. Este foi barra. Eu já estava estabelecido efetivando a minha função, com uma família, quando o anjo disse para eu fugir para o Egito que Herodes queria matar o menino Jesus. Puta que Pariu! Que barra! Herodes matou muita criança. Eu consegui fugir, mas não esqueci os gritos das outras crianças. É este o lance com o bairro. Todas as suas crianças tem que ser responsabilidade de todos. No início é bem assim. Uma grande comunidade, mas, infelizmente, os interesses individuais estão cada vez mais se adequando aos interesses globais de uma política e economia perversa. Aí, um egoísmo racional prevalece. Mas isto para todos os bairros do mundo.
Poli (sentindo a ambiência se alterar) — É barra mesmo. Conta aí o outro.
São José (segurando a parada) — Legal. São mais dois. Uma mistura de alívio com necessidade. Fui avisado pelo anjo para sair do Egito e voltar para onde estava. Mas agora quem reinava lá era Arquelau, filho de Herodes, então o anjo avisou de novo para eu ir para a Galiléia. Mais uma vez a parada é não ficar passivo a estas ações. Tinha filho, esposa, mas podia ter ido lutar contra aquele regime autoritário de Herodes e que agora era de seu filho. Todo bairro tem que manter seus moradores unidos por laços de solidariedade que os fazem produzir atos revolucionários, mudando toda a realidade e estrutura das suas ruas e das famílias que ali vivem. Cara sei disso agora. Mas tinha a responsabilidade de cuidar do menino Jesus. Aí…
Poli (aproveitando a oportunidade) — É aí que entra a tua importância como pai?
São José (passando a mão nas longas barbas brancas) — Talvez sim. Mas aí tem um problema. O lance de ser pai, não é apenas cuidar do seu filho. É também compreender que este filho pode e vai, com todo o direito a fazê-lo, produzir uma existência própria. E às vezes ele vai mais além dos pais. Ficam maiores e passam a ser os seus mestres, em uma inversão das funções familiares. Foi o caso do menino Jesus. Menino porreta! Sempre presente e atento a Terra. Com as coisas daqui.
Poli (querendo abafar) — É aí que Jesus nos diz que Deus é imanente?
São José (em um corte, gargalhando gostosamente) — Ora! Deus sempre foi imanente. Ele existe dentro de nós, em nossas ações, em nossa fé. O que ainda não sacaram, como a outra alegria chamada Spinoza já tinha sacado, é que o lance é a materialidade de Deus (e aí, aqui acrescento por conta própria: a materialidade dos ensinamentos do menino Jesus)em comportamentos religiosos como força produtiva principal para uma transformação ética e política do mundo.
Poli — E os santos são então imanentes também?
São José (Pensativo) — Gostei. Não tenho transcendência alguma, mesmo. Nem eu nem nenhum santo. Lembro muito do companheiro São Francisco. Militante, político. Como ele pode ser transcendência? Não há como.
Poli — E a Igreja?
São José (olhando para todos em volta do bar) — Aqui! Somos nós e nossas ações e atitudes. Tudo começa pela Terra e percorre a Terra para modificar a Terra.
Poli (Satisfeito por ter tido a oportunidade de conversar com São José) — para terminar por enquanto, fala sobre o crescimento comercial do teu bairro homólogo aqui em Manaus.
São José (pedindo a conta, que foi dividida) — Olha, o que acontece no São José é a evidência de que os comerciantes sabem onde fica a verdadeira movimentação financeira. Eles não são como economistas mitificados que acreditam que esta movimentação esteja no abstrato, fora do real. É onde existe as pessoas verdadeiras com as suas necessidades verdadeiras, produzindo com os seus desejos, é lá onde tudo se movimenta, até a grana. O São José é um grande mercado, ou seja, um ponto de encontro.
Poli (abraçando e sendo abraçado por São José) — Valeu!
São José (lembrando) — Olha! Como tá lá no Evangelho apócrifo na parte da História de José o carpinteiro, capítulo XXX, n. 3, escrito entre os séculos IV e V no Egito, “Quando fordes revestidos de minha força e receberdes o Sopro de meu Pai, isto é, o Espírito Paráclito, e quando fordes enviados a pregar o evangelho, pregai também a respeito de meu pai José.” Falou Moçada!
Intempestivamente: o encontro com São José não se deu em nenhum lugar da superstição ou de uma consciência mitificada e mistificada. O encontro aconteceu como todos ao outros encontros: nos acasos da existência. E com amor conversamos todos.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Não imaginava



Passou por mim na Avenida Margarita, às 16:30 de ontem, quando eu voltava do trabalho para casa, olhei no retrovisor e vi um carro vindo em altíssima velocidade, joguei o meu para a direita, e ele passou como um raio, vidros fechados, não consegui ver o rosto do motorista, foi quando percebi a polícia atrás, sofrendo para persegui-lo, óbvio, era uma fuga. O carro perseguido dobrou à esquerda, em frente ao posto Ipiranga, e seguiu pelas ruas do Alfredo Nascimento. À essa altura, outras viaturas somavam-se ao lento comboio, a destreza do motorista perseguido era notória. À certa altura, os outros tripulantes do carro baixaram os vidros, e trocaram tiros com a polícia, que revidou e acertou um único tiro no motorista, que mesmo baleado conseguiu guiar o veículo durante metros, até cair de um barranco. Os tripulantes, homens que praticavam assaltos à mercadinhos (pratica comum por essas bandas) correram e sumiram pelo mato adentro, no automóvel, a identidade do motorista se revela: uma menina, 18 anos apenas, ela tinha nome e sobrenome, e havia escolhido um caminho ruim para si. Na internet, além dos tradicionais comentários e palavrões destinados à defunta (como se fossem melhorar sociedade), dizem que Dariane Costa Ferreira deixa órfão um menino. Imagino que com essa idade, ela poderia ter sido minha aluna, poderia ter sentado em uma das cadeiras dos terceiros anos, poderia ter sido nossa conhecida e companheira de jornada. Talvez ela morasse no Cidade de Deus, bairro com maior número de mortes violentas em Manaus. Talvez, se tivesse pensado mais um pouco não entrasse nessa.
Ao contrário do que alguns possam pensar isso não é pena, nem defesa de bandido, é tristeza por toda essa história de vida e desejo que outras jovens, das centenas que passam por nós todos os dias, não entrem no mesmo caminho e escolham para si sempre o melhor

sábado, 27 de janeiro de 2018

Aprendi com Randy Pausch

Terminei hoje a leitura do best seller "A Última Lição", de Randy Pausch.
Randy foi um professor de ciência da computação na Carnegie Mellon, que diante de um diagnóstico de câncer terminal no pâncreas, resolve subir ao palco do auditório da universidade onde dava aulas para proferir sua última aula, uma palestra de despedida, na presença de alunos, ex-alunos, colegas de trabalho, amigos e familiares. É um livro inspirador, não é a toa seu número de vendas ao redor do mundo e o sucesso de sua palestra em vídeo, disponível até hoje na internet. 
Randy faleceu em 25 de julho de 2008, mas deixou essa obra, segundo ele mesmo, para seus filhos. Mas nós, leitores, aproveitamos para aprender com seu exemplo, e por ele ter sido um professor, isso chama ainda mais a minha atenção. 
O livro é tão simples quanto tocante e cheio de frases inspiradas, mas um momento que me marcou profundamente é quando ele fala sobre seus pais:    
"Meus pais sabiam o significado real de ajudar as pessoas. Estavam sempre em busca de grandes projetos fora do comum e se dedicavam a eles de corpo e alma. Mantinham um alojamento para cinquenta meninas no interior da Tailândia, destinado a mantê-las na escola e longe da prostituição.
Minha mãe sempre foi extremamente caridosa. E meu pai se contentava em dar tudo o que tinha e andar mal vestido, em vez de morar em um bairro melhor (...). Nesse sentido, considero-o o homem mais "cristão" que conheci. Também foi um grande batalhador em prol da igualdade social. Diferentemente da minha mãe, ele não simpatizava muito com religiões organizadas. Preferia se dedicar a ideais mais nobres e dizia que a igualdade era o maior de todos os objetivos. Tinha grande esperança na sociedade e, embora muitas vezes a realidade o contrariasse, sempre foi um otimista ferrenho.
Aos 83 anos meu pai foi diagnosticado com leucemia. Ao saber que lhe restava pouco tempo de vida, tratou de doar seu corpo para a medicina e fez uma doação para que seu programa na Tailândia durasse pelo menos mais seis anos". (p.36 e 37)
Este trecho em especial me tocou não somente porque através dele conhecemos a grandiosa generosidade do pai de Randy, mas por sua disposição (e este é o exemplo que tiro para mim) de não ficarmos apenas nas palavras, num cristianismo de púlpito, de fins de semana, de retiros e pregações uns para os outros. Mas, de sermos gente que age na direção do que acredita, ninguém precisa virar missionário, deixar o emprego ou mudar-se de país para isso, basta começar a fazer o que pode, segundo os seus recursos e energia para a construção de um futuro melhor para todos.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Quantos pedaços ainda me faltam?

"Eu nunca conheci alguém assim, não um adulto. A maior parte do tempo ele era adulto, mas faltavam uns pedaços nele..." Pensava o jovem James à respeito do homem acabara de conhecer e que o abraçava fraternalmente, visivelmente emocionado por saber que, mesmo tendo errado tanto na vida, sua filha, a namorada do jovem, ainda o amava, talvez amasse muito mais a imagem de pai construída durante os anos de ausência, mas isso não importava pra ele naquele exato momento.
Podemos imaginar, que segundo o adolescente, Leslie é um adulto que não se percebe, e vemos isso ao longo dos dois últimos episódios de The End Of de F***ing World, disponível na Netflix. Esse mundo, descrito pelos olhos dos jovens Alysse e James, cumpre sua função de "ferrar" a vida de todos (como diria Kurt Cobain "ninguém morre virgem..."). A dupla de diretores Jonathan Entwistle e Lucy Tcherniak acompanhada do roteirista Charlie Covell nos conduz sob a perspectiva recorrente em séries inglesas de teor niilista, iconoclasta, em que ninguém é perfeito, não existem heróis. Alyssa busca o encaixe, quer descobrir qual é o seu lugar, mas antes de tudo, suprir uma falta de não se sabe o quê. James a acompanha nessa jornada na primeira metade da trama com um objetivo que ele pensa ser claro, mas que vai se revelando ser outro ao longo dos curtos oito episódios. 
A série bem que poderia ter mais, o final deixa definições em aberto. Porque o que importa de fato não é sabermos o fim, mas o processo de como essa trama se desenrola, e quem são essas pessoas.
Leslie o pai "perdido" de Alyssa é descrito na cena destacada como alguém cujos pedaços lhe faltam. Ao longo da nossa existência conhecemos muitas pessoas assim. Gente que parece não ter crescido mas por um motivo bem perceptível, não sabe onde precisa crescer. Se um dos aspectos da vida adulta está em assumir responsabilidades, sejam conjugais e ou com a criação de filhos, o homem retratado ali foge. E continua a fugir até agora, quando a vida parece começar a cobrar-lhe as contas de suas irresponsabilidades. 
Ao ver esta cena, a pergunta que ressoa e que pode ser respondida, discutida, mas não rejeitada por nós, que somos todos filhos de alguém, mas princialmente pelos que hoje são pais é: quantos pedaços ainda me faltam?

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Os fiscais da vida alheia

Fiscais da vida alheia, espécie muito comum em ambientes religiosos, gostam de julgar, o julgamento é um hábito cultivado com fervor. 
Desejam mandar nos outros, por isso buscam sempre um lugar de autoridade, montam argumentos para impor sua opinião. Fiscais da vida alheia são autoritários.
Amam uma fofoca, se metem onde não são chamados, dão palpites no que não lhes diz respeito. Fiscais da vida alheia são mal educados.
Preconceituosos, não usam de misericórdia, agridem com palavras, mas fogem quando enfrentam o contraditório à altura. Fiscais da vida alheia são covardes.
Detestam a bondade e a caridade, são contra a esperança, tem sempre uma opinião negativa sobre o próximo. Fiscais da vida são muito chatos.
Sentem-se apequenados com o sucesso dos outros e por isso torcem pela queda deles. Fiscais da vida alheia são invejosos.
Fiscais da vida alheia são filhos do ódio, adversários do bem, são anti-felicidade, são anti-paz, anti-amor, anti-Deus.
(em referência aos constantes ataques de "fiscais da vida alheia" à Kleber Lucas na página dele)

domingo, 24 de dezembro de 2017

PALAVRAS



PALAVRAS
Palavras consolam na dor. Alimentam a fome da alma.
São teto na tempestade do medo. Cobertor no frio da rejeição.
Palavras não dos deixam solitários.
São amigas que não faltam, nos compreendem, nos acolhem.
Palavras nos limpam. São cachoeiras que renovam a mente. Fogo que nos incendeia o coração. Vinho, sangue, carne e pão.
Palavras nos ensinam no caminho, nos educam pra vida. São como pais chatos, que nos amam e nos corrigem com paixão.
Palavras.
O Mundo foi criado por meio Dela
A Palavra que deixou o Céu e seu trono sagrado, pra nascer pequena e frágil, humilde, mas cercada de Amor, num estábulo.
Através de uma Palavra a água virou vinho e aquele casamento teve um novo sabor.
Através de uma Palavra o cego foi curado, e ele viu tudo aquilo que o mundo das palavras já tinha lhe mostrado.
Através de uma Palavra o mudo falou até cansar,
Com uma Palavra Lázaro voltou a caminhar.
E o meu coração é incendiado com a Verdade que liberta a alma.
Palavras nos trouxeram aqui, para ouvir-nos, uns aos outros. E transformar nossa realidade.
Uma Palavra criou o Mundo. A mesma Palavra um dia voltará, para salvar a humanidade.
(Erson S. Lima)

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Como deve ser Deus por dentro.



Ainda não sabemos que estranha magia é essa, em que um coração se multiplica por dois.
Seja um fenômeno da física, da química, da biologia, ou da suprema ciência da vida, a Poesia. O certo é que aquele órgão se expande, para abrigar mais uma vida que nasceu inteira, pronta para enfrentar as agruras deste mundo.
E o milagre se repete.
Então, o sorriso se une à esperança, os seus olhos registram cada momento para a memória como a mais moderna câmera. Os pequeninos vão crescendo e você logo lembra de cada instante, de cada fala sorridente, de cada "eu te amo" dito com rapidez entre uma brincadeira e outra. Seu álbum interno vai sendo montado e todas passagens alegres aprofundando a percepção da grandeza deste amor.
Deus só pode ser pai e mãe.
Então, você navega neste sentimento, um cuidado extremo, um olhar milimétrico para cada poeira que entra nas roupas, mosquitos que ferram, coisas que arranham. Prevenindo acidentes, subindo objetos que não podem ser tocados, fugindo de todas as possíveis contaminações de doenças. Protegendo, protegendo, protegendo.
E quando começa a fase das brigas, dos puxões de orelha, dos "nãos!" ditos com veemência ditatorial, ainda percebe que aquele amor ainda está lá. Apesar de todo o estresse, de todo cansaço, de toda a luta diária em favor deles. Sua percepção de que a vida não faz sentido sem eles só aumenta.
Você não é só mais um homem, mais uma mulher, é pai e mãe, como Deus deve ser.
Alguns corações se multiplicam ainda mais, para abrigar cada vez mais existências; três, quatro, cinco..., o nosso divide-se em dois e vivemos em quatro.
Ainda não sabemos o que faz este sentimento ser tão grande, e puro, a certeza de sua eternidade só aumente, e a solidão existencial de cada um de nós só diminui, a medida que ele nos preenche. Nunca o entenderemos, mas mergulhamos nele.
É como deve ser Deus por dentro.

Escombros

  A vida clama dentro de nós, querendo eclodir,  o futuro e o presente ao mesmo tempo.  Quem somos?  A junção disso tudo e nada ao mesmo tem...